"MENTES CRIATIVAS SÃO CONHECIDAS POR RESISTIREM A TODO TIPO DE MAUS TRATOS."
SIGMUND FREUD
Mostrando postagens com marcador saúde. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saúde. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SÓ DE SACANAGEM



Meu coração está aos pulos.

Quantas vezes minha esperança

será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar:

malas, cuecas que voam

entupidas de dinheiro,

do meu dinheiro, do nosso dinheiro,

que reservamos duramente para educar

os meninos mais pobres que nós, pra cuidar

gratuitamente da saúde deles

e dos seus pais.

Esse dinheiro viaja

na bagagem da impunidade

e eu não posso mais.

Quantas vezes meu amigo, meu rapaz,

minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança

vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis

existem pra aperfeiçoar o aprendiz.

Mas não é certo que a mentira

dos maus brasileiros

venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro,

a luz é simples,

regada ao conselho simples

de meu pai, minha mãe, minha avó

e os justos que os precederam:

”Não roubarás,

devolva o lápis do coleguinha,

esse apontador não é seu, minha filha”.

Ao invés disso,

tanta coisa nojenta e torpe

tenho tido que escutar.

Até habbeas corpus preventivo

Coisa da qual nunca tinha ouvido falar

E sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste

Esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo,

com a velha e fiel fé do meu povo sofrido,

então agora eu vou sacanear:

mais honesta ainda eu vou ficar.

Só de sacanagem.

Dirão: deixa de ser boba. Desde Cabral

que aqui todo mundo rouba.

Eu vou dizer: não importa.

Será esse o meu carnaval.

Vou confiar mais e outra vez.

Eu, meu irmão, meu filho

e meus amigos vamos pagar limpo

a quem a gente deve

e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue

ser livre, ético e o escambau.

Dirão: é inútil, todo mundo aqui é corrupto,

desde o primeiro homem

que veio de Portugal.

E eu direi: não admito.

Minha esperança é imortal.

E eu repito: ouviram? Imortal.

Sei que não dá pra mudar o começo.

Mas, se a gente quiser,

vai dar pra mudar o final.

POEMA DE ELISA LUCINDA, ATRIZ E ESCRITORA.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O CÂNCER E A SEXUALIDADE



GALERA COMO EU HAVIA PROMETIDO AÍ ESTÁ UM TEXTO DE MINHA AUTORIA, APRESENTADO NA UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ - RESENDE, COMO REQUISITO DA MATÉRIA DE PSICOONCOLOGIA, CLARO QUE ISSO NÃO SERIA POSSÍVEL SEM A AJUDA DE ALGUMAS PESSOAS, E AQUI QUERO DEIXAR REGISTRADO MEUS AGRADECIMENTOS E VOTOS DE CARINHO E SUCESSO A TODAS ELAS:
À PROFESSORA CÉLIA REGINA, PROFESSORA DEDICADA E ATENCIOSA, QUE MUITO TEM ME ENSINADO COM SUA EXPERIÊNCIA; À GABRIELE ZACARIAS, GRANDE AMIGA E COMPANHEIRA DESTA "LONGA" JORNADA ACADÊMICA E A GIOVANA NASCIMENTO, UMA PROFISSIONAL ALTAMENTE CAPACITADA E DEDICADA, ALÉM DE UMA PESSOA NOTA 10! MEU MUITO OBRIGADO A VOCÊS!

1 INTRODUÇÃO

O câncer é uma doença que representa para muitas pessoas, um momento difícil e traumático, apesar dos avanços da medicina e de modernos tratamentos, este ainda significa para elas, a morte inevitável com muita dor e sofrimento.

Com o progredir da doença, são suscitados novos desafios, a medida que falham sucessivos esquemas terapêuticos, e o aparecimento de novas limitações físicas do doente diminui as expectativas de cura. O diagnóstico de câncer deixa nos enfermos que conseguem sobreviver noção ampliada de sua vulnerabilidade e do risco de mortalidade. (DUDGEON, 1995, p.255)

O trauma do paciente oncológico está atrelado ao tipo de tumor, sua evolução e com o tratamento, esses fatores trazem grande impacto sobre o ajustamento psicossocial do paciente. A quimioterapia e a hormonioterapia, por exemplo, acarretam aumento de peso e a perda de cabelo, causando alterações no corpo e inclusive na auto-estima. Alguns processos cirúrgicos resultam em mutilação e desfiguração, além de modificar o trajeto das excreções ou prejudicarem a função sexual. A radioterapia pode causar queimaduras na pele, dificuldade de deglutição, diarréia, além da conhecida perda de cabelos.
É muito comum, que os pacientes oncológicos sejam acometidos pela depressão e esta pode ser difícil de diagnosticar. Afirma Dudgeon (1995, p.259), que a perda do libido é uma das característica da depressão.
Diversos são os traumas sofridos pelos pacientes de câncer, assim, como diversas são as causas que podem levar ao paciente a perda da sexualidade, porém, mesmo diante de quadros médicos e psicológicos traumáticos, é possível que com o apoio e orientação do psicólogo, o enfermo encontre dentro de si forças para enfrentar esta doença da melhor maneira possível, sem deixar que ela afete de maneira tão aguda os prazeres da vida, dentre eles sua sexualidade.
A doença incide sobre o corpo do paciente, corpo esse que também é campo para sexualidade. Essa simultaneidade de funções, patológica e erógena, não pode passar em branco para o psicólogo. Há que estar atento a esse ponto em termos teóricos, e há que se estar aberto para conversar sobre ele se o paciente tocar no assunto. (SIMONETTI, 2004, p.156).

Portanto, o objetivo deste trabalho é fazer um estudo sobre os aspectos psicológicos que podem levar os pacientes oncológicos à perda ou diminuição da sexualidade, bem como desenvolver propostas de intervenção a fim de preservá-la e/ou desenvolvê-la de maneira saudável neste momento difícil.
2 A INFLUÊNCIA DO TRATAMENTO NA SEXUALIDADE

Com a correria diária se esquece muitas vezes, de que a vida acontece, e ela pode ser tão bela quanto frágil, e o diagnóstico de uma doença como o câncer pode alterar o sentido do existir humano. As prioridades e os valores passam a ser colocados em segundo plano, para se preocupar apenas com o tratamento.
De acordo com Macieira (2009), “o câncer tem limitações e não pode engessar a vida que temos a viver, congelar a alegria, destruir o prazer e roubar os minutos de plenitude que podemos alcançar”.
Porém, quando é diagnosticada a doença tudo na vida perde a importância e ela passa ser a preocupação central na vida dos pacientes e familiares. Assim, acabam surgindo diversos sintomas psicológicos, que enfatiza Simonetti (2004, p.37), como o medo, a revolta, a depressão e a negação.
Como a atenção, dos pacientes, familiares e da equipe de saúde está voltada para a doença e para o desencadear das emoções causadas, dão pouco ou nenhuma importância para a sexualidade do indivíduo, tema que faz parte de um dos aspectos mais importante para a sua qualidade de vida.

Qualidade de vida relacionada à saúde, a percepção do individuo sobre seu estado. Esta percepção normalmente está relacionada a determinadas dimensões de sua vida, que em muitos instrumentos utilizados na tentativa de mensurar qualidade de vida, dizem respeito a fatores psicológicos, físicos, econômicos, sociais e espirituais. (KOWALSKI, 2002, p.285)

Dentre estes aspectos essenciais da vivência humana, a sexualidade, que em sentido mais amplo, representa a identidade pessoal e uma forma de se relacionar com o outro de uma maneira afetiva, envolvendo um ritual de intimidade com o próprio corpo e com o corpo de outro. E muitas vezes com a ameaça da morte, a sexualidade passa ser um item de menor importância.
Os traumas emocionais são inevitáveis, porém é possível que os pacientes encontrem dentro de si, a força para resistir a doença e aos respectivos tratamentos. Mas, torna-se imprescindível para o psicólogo prever a perturbação psicológica que pode ocorrer na fase do diagnóstico e do tratamento. Neste capitulo serão discutidos as influências que os tratamentos como: a quimioterapia, a hormonioterapia e o tratamento cirúrgico trazem para a sexualidade.

2.1 QUIMIOTERAPIA

A quimioterapia é um passo para o tratamento do câncer, que por ser uma doença celular, torna-se necessário que as células doentes sejam combatidas através do uso de químicas.
Este tratamento é aplicado após uma avaliação médica e pode ser feita antes ou após a cirurgia para a retirada do tumor. Para ser aplicada a quimioterapia, alguns fatores são levados em consideração, tais como: o tipo de tumor, seu estágio de desenvolvimento, a idade e o estado físico do paciente.
Porém, a quimioterapia atinge não somente as células doentes, mas também, as células sadias causando efeitos colaterais, já citados anteriormente, como: queda de cabelos, náuseas e vômitos, estomatite, diarréia, prisão de ventre, todos esses fatores podem interferir nas relações sexuais entre outros efeitos.
Apesar do tratamento não impedir a relação sexual, as alterações emocionais também podem fazer com que o indivíduo perca um pouco do interesse sexual.

A diminuição do desejo sexual pode ser influenciado por fatores orgânicos ou psicológicos. Os orgânicos caracterizam-se, principalmente, pela diminuição do hormônio testosterona, responsável pela apetência sexual, decorrente do tratamento quimioterápico como, também, pela falta de disposição resultante da severa anemia vivenciada por essa clientela e pela presença de náuseas e vômitos. Os fatores psicológicos são marcados pelo constante sofrimento, medo e preocupação decorrentes da doença e do tratamento. (MELO, 2006, p.3)

Os problemas relacionados à perda da excitação sexual masculina são influenciados pela perda do hormônio testosterona e na mulher pela falta de lubrificação vaginal decorrente da queda do nível do hormônio estrôgeneo.

2.2 HORMONIOTERAPIA

Alguns tumores evoluem por causa da presença hormonal, como por exemplo: os de mama, próstata e endométrio. O objetivo da hormonioterapia, é justamente, impedir a ação destes hormônios, bloqueando ou suprimindo os efeitos de hormônio sobre o órgão alvo.
Assim como a quimioterapia, a hormonioterapia age em todas as partes do organismo.
Durante o tratamento hormonal é possível que haja a diminuição da libido divido as medicações.


A diminuição da libido não é geralmente um efeito colateral permanente no tratamento oncológico e pode ser gerenciado. Para muitas pessoas, a libido retorna ao normal após o término do tratamento. Entretanto, algumas pessoas podem necessitar de intervenção médica para aumentar sua libido. Mulheres que tiveram câncer de mama e estão em tratamento hormonal também podem ter uma diminuição da libido. (ONCOGUIA, 2010)

Muitas das causas da ausência da sexualidade na fase do tratamento, está ligado a auto-estima, a perda do cabelo, a perda de peso causados pelo tratamento de combate à doença.

2.2 TRATAMENTO CIRURGICO

Neste tópico serão abordadas especialmente, as cirurgias de câncer de mama e próstata, que são as grandes causas da perda da sexualidade, uma vez que ambas podem mutilam órgãos de extrema importância para a sexualidade tanto masculina quanto feminina.
O câncer de mama é o câncer que se manifesta com grande freqüência entre as mulheres brasileiras, é caracterizado por uma multiplicação exagerada e desordenada da s células.
A cirurgia do tratamento do câncer de mama pode ser conservadora ou radical, conservadora quando retirar apenas uma parte da mama e radical quando retirar a mama inteira.

O câncer de mama traz muitas complicações na auto-estima das mulheres, diminuindo muito o desejo de se expor ao parceiro. A mama é considerada um ponto da feminilidade se o câncer gerou a necessidade de retirada de uma ou de duas mamas, a mulher pode ficar bastante abalada sexualmente. (ONCOGUIA)


Assim, o este tipo de câncer pode interferir de maneira expressiva na vida sexual do casal. Mas é necessário que ambos procurem formas para se adaptarem a nova realidade e tragam de volta sua intimidade e cumplicidade.
Quanto ao câncer de próstata, pode-se dizer, que afeta o homem em seu bem-estar físico e emocional. O tratamento deste tipo de câncer pode acabar afetando a masculinidade e gerando a impotência.
O sofrimento masculino se deve às limitações físicas e a diminuição da ereção, sobretudo, quando há prostectomia radical (retirada dos testículos) responsáveis pela produção dos hormônios masculinos.
Nas palavras de Tofani (2007, p.200), “o tratamento dos homens quase invariavelmente acarretam os conhecidos riscos de incontinência e da impotência que atingem a essência da masculinidade”.
Para isso, é importante lidar com as emoções e o medo, desenvolvendo maior auto-estima e auxiliando a sua qualidade de vida.

3 DISTURBIOS PSICOLÓGICOS DA DOENÇA
A medida que houve um avanço no tratamento do câncer a taxa de mortalidade também diminuiu entre os diagnosticados positivamente, mediante esse fato hoje em dia passa-se a ser muito considerada a qualidade de vida destes pacientes, onde se inclui a atenção ao bem estar psíquico, pois conforme temos exposto no decorrer desse trabalho muitas vezes são influenciados por diversos distúrbios psicológicos, que podem algumas vezes influenciar na sua sexualidade.
Os efeitos psicológicos podem surgir do medo ou tristeza pelo diagnóstico em si. Outra possibilidade é que uma alteração na imagem corporal cause medo de rejeição pelo parceiro. (SANTOS, 2002, P.36).

Os distúrbios mais recorrentes nos pacientes oncológicos são: a depressão e a ansiedade.

3.1 DEPRESSÃO
Nas palavras de Govindan (2002, p.594), “Em geral, a depressão é mais comum, e o diagnóstico mais freqüente é de Depressão Importante e Distúrbios de Ajuste com Humor Deprimido”
A Depressão importante pode ser confundida com sintomas do câncer ou efeitos colaterais do tratamento. Alguns efeitos que podem gerar certa confusão são: perda do apetite, fadiga e problemas de concentração. Alguns profissionais chegam a propor que o diagnóstico da depressão nos pacientes repousa nos sintomas psicológicos da depressão. Alguns pacientes relacionam seus comportamentos pessoais com o desenvolvimento da doença.
A depressão é mais comum em tipos específicos de câncer (pancreáticos, pulmonar), em face do prognóstico sombrio, e na presença de dor. Indivíduos com uma história de distúrbio do humor correm maior risco de desenvolvimento de depressão após um diagnóstico de câncer, assim como aqueles com uma história familiar de depressão. Outros fatores de risco incluem o abuso de álcool e de drogas, a idade mais jovem, o sexo feminino e a pressão socioeconômica. (GOVINDAN, 2002, P.595).

A depressão psíquica pode levar o paciente de câncer a perda do libido, entre outros sintomas decorrentes da doença. Por isso, o aconselhamento psicológico é tão importante e necessário.

3.2 ANSIEDADE
A ansiedade pode ter diversas formas, após o diagnóstico do câncer podem ocorrer a ansiedade generalizada, caracterizada por ansiedade excessivas, muitas vezes os pacientes apresentam irritação e pessimismo.
Algumas fobias específicas também podem ocorrer após o tratamento de quimioterapia. Este problema fica evidente em náuseas antecipatórias, quando ele recebe a quimioterapia e a piora da náusea se desenvolve. E a náusea pode ocorrer antes do tratamento ou sem a presença do tratamento.
A sexualidade também é influenciada pela ansiedade, tanto a ansiedade em relação à doença e ao tratamento, quanto à ansiedade em relação ao próprio ato sexual. Em relação ao ato sexual, a ansiedade se manifesta através da preocupação em satisfazer o parceiro, e não conseguir, em caso de uma tentativa frustrada, pode gerar no individuo pensamentos automáticos que podem se manifestar através da evitação do contato e falta de iniciativa sexual.

4 SEXUALIDADE: APOIO PSICOLÓGICO
A denominação das manifestações psíquicas da vida sexual, combina com a base química da relação sexual. Freud (2002, 94), descreve o libido como “uma força quantitativamente variável que poderia medir os processos e transformações ocorrentes no âmbito da excitação sexual”.

Consideramos a sexualidade uma dimensão da vida que envolve a comunicação com o nosso eu, com os outros e com o universo de significados em que estamos inseridos. Nesta concepção o corpo tem grande importância, pois ele não apenas atesta a nossa existência, como também nos possibilita a comunicação com o mundo e com as pessoas que se encontram nele. (SANTOS, 2002, P.33).

A excitação sexual é fornecida não só pelas partes chamadas partes sexuais, mas sim, por todos os órgãos do corpo, por isso a questão da sexualidade passa pela imagem corporal que o paciente tem de si.

.4. A PERDA DA SEXUALIDADE DO PACIENTE DO CÂNCER
O câncer por representar uma doença que maltrata o corpo, altera o estado emocional do paciente, inclusive, em sua qualidade de vida e na sexualidade. Homens e mulheres acometidos pela doença vêem sua sexualidade fragilizada, ao terem mutilados os órgãos que são a expressiva representação da sexualidade.
O diagnóstico do câncer de mama ou próstata pode afetar significativamente a vida sexual do casal. Para Cantinelli (2006), “reações de ajustamento ou mesmo depressão e ansiedade tem forte impacto sobre a sexualidade”.
Quanto ao câncer de mama, especificamente, relata Gomes (2002), “no universo simbólico, a mama é um elemento fundamental capaz de concentrar papéis da identidade feminina, como a sexualidade, sendo os seios objeto de prazer e desejo”.
Além disto, a retirada parcial ou total da mama, pode levar às mulheres a sensação de solidão, a perda dos vínculos e uma quebra de sentido e inclusive a perda da auto-estima.
Em se tratando do câncer de próstata ou no genital masculino, os fatores culturais podem influenciar negativamente às questões relacionadas à sexualidade.
Assim, como o câncer de mama é um dos maiores medo das mulheres o câncer de próstata não é diferente para os homens, pois trazem consigo, não somente o medo da própria morte, mas também, o medo que tocam no próprio cerne da sua sexualidade.

4.2 APOIO AO PACIENTE PARA PRESERVAÇÃO DE SUA SEXUALIDADE
Para auxiliar a qualidade de vida do paciente é de extrema relevância a avaliação de todos os aspectos psicológicos que envolvem do diagnóstico de câncer, inclusive e, sobretudo, em relação à sexualidade.
É importante destacar que os diagnósticos são necessários para dar uma direção ao tratamento, na medicina o diagnostico se dá por meio dos sintomas, diferente da psicologia, segundo Simonetti (2004, p. 33), “na psicologia hospitalar o diagnostico é o conhecimento da situação existencial e subjetiva da pessoa adoentada em relação a sua doença”. É importante salientar que o psicólogo não pode de maneira alguma se ater somente ao diagnostico inicial, ele deve permanecer atento às mudanças situacionais que podem acarretar uma necessidade de mudança de estratégia, para isso se faz necessária uma constante avaliação do quadro psíquico do paciente.
O primeiro aspecto a se considerar deve ser a história de vida da pessoa adoentada, pois de nada servem os termos técnicos e dados patológicos, muito menos as intervenções médicas ou psicológicas se não for levado em conta à maneira como o paciente a representa.
Em segundo lugar é importante também observar a estrutura psicodinâmica da personalidade do individuo, e assim conhecer a sua relação ao seu processo de adoecimento e do seu tratamento.
E por fim se estabelecer as condições de enfrentamento do individuo mediante a doença e seu prognóstico, ou seja, quais as possibilidades e limites para essa pessoa, e assim propor ações que visem à ampliação dos seus horizontes e deste modo gerar uma melhora na sua qualidade de vida.
Para tal se faz necessário um acompanhamento prévio do paciente, pois quanto antes se iniciar a preparação do paciente para os eventos que podem ocorrer no pós-operatório ou após as sessões de tratamento não cirúrgico (quimio/radio/hormonioterapia), isso aumentara seu tempo de reação, onde terá a oportunidade de se preparar para tais eventos. A comunicação entre o paciente e médico em todas as fases do tratamento é importante, porém ela é essencial na previa do mesmo, até mesmo para que o paciente possa se preparar para os efeitos colaterais do tratamento. Segundo Sebastiani (1995 p. 34), tanto o paciente quanto o devem ter um representante neutro, no caso o psicólogo.
Essa ponte de ligação, ou facilitação de vínculos, tem grande importância, sobretudo para o paciente, pois ela é uma possibilidade de se desenvolver dois sentimentos imprescindíveis para o bom prognostico emocional da relação do individuo com a cirurgia e o processo, muitas das vezes longo, de pós-operatórios e reabilitação, que são confiança e a autorização. (SEBASTIANI, 1995 p.34)

Neste âmbito o psicólogo estabelecera um vínculo importante, pois ele não representa uma “ameaça” ao paciente, é o que Sebastiani chama de privilégio do psicólogo.
A partir daí o psicólogo poderá trabalhar todos os aspectos referentes aos itens acima destacados, como história de vida e estrutura psicodinâmica do paciente, bem como de sua família e juntamente com ele estabelecer as diretrizes por onde seguirá sua recuperação, inclusive a da sua sexualidade. Segundo Santos (2002, p. 23) apput Witten e Lampert (1999), “os profissionais de saúde devem incluir a função sexual como parte da avaliação das necessidades da reabilitação do paciente, ainda que seja desconfortável tanto para eles quanto para os pacientes o encaminhamento de aspectos relacionados à sexualidade”.
É imprescindível o envolvimento familiar no que tange a questão da sexualidade do paciente, principalmente quando se trata de pessoas casadas, o envolvimento do cônjuge na recuperação do paciente é indispensável, para tal ele deve ser informado de todas as nuances e possibilidade de reações que podem ocorrer.
Outro ponto quer deve ser observado pelo profissional de psicologia é o cuidado com a imagem corporal do paciente que como dissemos anteriormente é uma das causas da perda da sexualidade do paciente, é importante trabalhar auto-estima do mesmo:

Nos casos de disfunção orgânica, apesar de existir uma série de tratamentos médicos, não se exclui a necessidade de terapia sexual ou psicoterapia, pois sempre existem os aspectos psicossociais relacionados não apenas à gênese, como também à manutenção da disfunção, como: medo de rejeição e abandono da parceira, conflitos em relação à própria masculinidade, baixa auto-estima etc. (Santos 2002, p. 68)

E por fim, mas não menos importantes são os cuidados com os aspectos depressivos e ansiosos que podem vir a serem apresentados pelos pacientes, que em suma são uma soma ou resultado das questões anteriormente relacionadas:

Além disso, a depressão, muito comum nos casos de câncer, é uma das maiores causas de disfunção sexual, pois afeta a fase do desejo, o apetite sexual. (Santos 2002, p. 68)


5 CONCLUSÃO

Homens e mulheres se posicionam de forma diferente frente à varias etapas do tratamento do câncer, e inclusive, na reabilitação da sua vida após o tratamento. Esta diferença já advêm da própria cultura e do modo pelo quais são socializados, portanto já não desenvolvem os mesmos estímulos e coragem para o enfrentamento da doença.
Porém, a forma do enfrentamento desta doença está relacionada a uma multiplicidade de fatores, como: doença, sintomas, estágio, o tratamento, a auto-estima, a estrutura familiar. Portanto, não há uma única estratégia para o auxilio a reabilitação do paciente e orientação do paciente quanto à conduta da sua sexualidade frente ao diagnóstico e ao tratamento do câncer.
Mas, é que o medo do câncer de mama para a mulher é tão semelhante quanto o medo que o homem tem em relação ao câncer de próstata, por acarretar para a mulher a perda de um símbolo tão valorizado sexualmente quanto a impotência por parte dos homens.
Assim, compreende-se que a alteração corporal para a mulher ou para o homem representa um enorme impacto psicossocial, impedindo-os de aceitar o próprio corpo e negando a se expor frente ao parceiro ou parceira, esta restrição ainda podendo se estender a contatos sociais.
A qualidade de vida, então, fica abalada com o diagnóstico da doença, deixando o individuo fragilizado. Dessa maneira, uma intervenção pode objetivar o manejo do estilo de vida, as condutas sociais, emocionais e sexuais, de modo a se adaptarem a nova realidade de maneira saudável.
È de extrema importância orientar o casal à uma conversa franca e aberta, onde haja uma disponibilidade para a compreensão, a aceitação e a uma nova postura frente ao ato sexual.

6 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CANCER de mama e sexualidade. Disponível em: http://www.oncoguia.com.br Acesso em 09 nov.2010.

CANTINELLI, Fábio Scaramboni.et al. A oncopsiquiatria no câncer de mama: considerações a respeito de questões do feminino. Revista de Psiquiatria Clínica, v.33, n.3, São Paulo, 2006. Disponível em: http://www.scielo.com.br Acesso em: 10 nov.2010.

GOMES, Romeu; SKABA, Márcia Marília Vargas Fróes; VIEIRA, Roberto José da Silva. Reiventando a vida: proposta para uma abordagem sócio-antropológica do câncer de mama feminino. Cadernos de Saúde Pública, v.18, n.1, Rio de Janeiro, jan./fev.2002. Disponível em: http://www.scielo.com.br Acesso em: 10 nov.2010.

GOVINDAN, Ramaswamy. Washington: manual de oncologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004.

KOWALSKI, Luiz Paulo, et al. Manual de condutas diagnósticas e terapêuticas em oncologia.2.ed.São Paulo: Âmbito Editores, 2002.

MACIEIRA, Rita de Cássia. Conversando sobre a sexualidade e o câncer. 2009. Disponível em:http://www.inana.com.br Acesso em: 08 nov.2010.

MELO, Alexandre de Souza; CARVALHO, Emilia Campos de; NILZA, Teresa Rotter Pelá. A sexualidade do paciente portador de doenças onco-hematológicas. Revista Latino Americana Enfermagem, março-abril, 2006.

SIMONETTI, Alfredo. Manual de psicologia hospitalar: o mapa da doença. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

TOFANI, Ana C.A; VAZ, Cícero. Câncer de próstata, sentimento de impotência e fracasso ante os cartões IV e VI do Rorschach. Revista Interamericana de Psicologia. v.41, n.2, 2007. p.197-204. Disponível em:http://www.psicorip.org Acesso em: 09 nov.2010.

TRATAMENTO do câncer e a diminuição da libido. Disponível em: http://www.psicorip.org Acesso em: 09 nov.2010.

SANTOS, Rosita Barral Homens com câncer de próstata: um estudo da sexualidade à luz da perspectiva heideggeriana. Ribeirão Preto, 2006. 243 p.: il.; 30 cm

TRUCHARTE, Fernanda Alves Rodrigues Psicologia hospitalar: teoria e pratica/, Fernanda Alves Rodrigues Trucharte, Rosa Berger Knijnik, Ricardo Werner Sebastiani; Valdemar Augusto Angerami-Camon (organizador). 2. Ed. São Paulo: pioneira, 1995

domingo, 6 de dezembro de 2009

REPRESENTAÇOES SOCIAIS DA DOENÇA EM UMA UNIDADE DE SAÚDE NO MUNICÍPIO DE VOLTA REDONDA


INTRODUÇÃO
O ser humano, sua saúde, sua integração e plenitude constituem o objetivo de seu trabalho profissional, aos quais não deve renunciar em nenhum caso (Bleger, 1984, pag. 43), com essa frase de José Bleger, renomado professor universitário, falando dos objetivos do trabalho do psicólogo em comunidade ou instituições; iniciamos nosso trabalho, com o intuito de tentar compreender como os indivíduos efetivamente experiênciam a questão saúde/doença, e até que ponto são influenciados pelo grupo pessoas de onde trabalham. Muito tem se falado a respeito do conceito de saúde/doença e da sua influência sobre a vida dos indivíduos de maneira geral, a mídia, especialmente a televisiva, tem bombardeado seus espectadores com propagandas e campanhas sobre saúde. Mas será que estamos no caminho certo? Pergunto-me para que tipos de público essas campanhas são feitas, pois o seu efeito pode variar muito dependendo das pessoas que as vêem, pois cada uma delas tem seu próprio conceito do que é ter saúde ou, do que é estar doente. Existem diversas definições de saúde, uma das mais populares é a noção dicotômica, que trata saúde como mera ausência de doença, mas os profissionais de saúde e das ciências humanas adotam a definição da OMS (1947): “saúde é o estado mais completo de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade”, é por esse conceito que vamos pautar nosso trabalho.
Mais de vinte anos depois da divulgação da Carta de Ottawa, elaborada durante a Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, Canadá, em novembro de 1986, percebemos diversas questões ainda pendentes de realização ou de concretização, como por exemplo, o trecho abaixo transcrito, que trata sobre a capacitação da comunidade, da qual os profissionais que trabalham na área da saúde fazem parte, para obter sua autonomia de ação mediante a doença:
“Alcançar a eqüidade em saúde é um dos focos da promoção da saúde. As ações de promoção da saúde objetivam reduzir as diferenças no estado de saúde da população e assegurar oportunidades e recursos igualitários para capacitar todas as pessoas a realizar completamente seu potencial de saúde. Isto inclui uma base sólida: ambientes favoráveis, acesso à informação, a experiências e habilidades na vida, bem como oportunidades que permitam fazer escolhas por uma vida mais sadia. As pessoas não podem realizar completamente seu potencial de saúde se não forem capazes de controlar os fatores determinantes de sua saúde, o que se aplica igualmente para homens e mulheres.” (Organização Pan-Americana da Saúde, 1986, pag. 01)
Mas como podemos falar em saúde e na promoção da mesma, quando os próprios agentes promotores de saúde, dentro desse conceito incluímos para fins desse estudo as pessoas que são pagas, para efetivamente promover ações de saúde, ou seja, os profissionais dessa área, seja qual for o setor em trabalhem, por exemplo: uma pessoa que trabalhe na limpeza e higienização de uma unidade de saúde faz parte deste conceito acima referenciado, bem como as pessoas que trabalham na cozinha, enfermagem, lavanderia portaria, direção e diversas outras atividades axercidas neste local, muitas vezes não se encontram plenamente capacitados para perceber com qual tipo de pessoa está trabalhando neste ou naquele atendimento, abordando a todos da mesma maneira. E isso pode ir além desse contexto, e esse é o principal motivo dessa proposta de intervenção, esses agentes de saúde algumas vezes nem sequer podem identificar suas próprias questões, fazendo com que alguns trabalhem doentes ou aparentemente saudáveis, trazendo assim prejuízos ao andamento do serviço e conseqüências físicas e psíquicas profundas nestes indivíduos. Até que ponto as instituições de saúde tem preparado ou auxiliado seus funcionários/agentes para que possam se sentir bem e assim ajudarem na promoção da saúde dentro da comunidade que convivem? Será que eles estão conseguindo por em prática todo seu potencial de saúde? Será que possuem ambientes favoráveis no seu lugar de trabalho, por exemplo, para o desenvolvimento da sua saúde? Ou ainda, até que ponto a instituição é responsável pela capacitação dos mesmos? Como a instituição pode ajudar seus membros sobre essas questões? Eles têm a possibilidade de controlar os fatores determinantes de sua saúde, dentro do seu ambiente de trabalho?
Estas são algumas das questões que procuraremos investigar e esclarecer, bem como propor ações que venham de encontro com as principais debilidades identificadas visando assim tentar proporcionar condições melhores de trabalho, ajudando com isso ao agentes/funcionários, desenvolver sua própria saúde e ser um multiplicador em sua comunidade ou grupo que faça parte.
INÍCIO DA PESQUISA
Ao conversar com minha mãe que é funcionária da principal Unidade de Saúde (US) do SUS (Sistema Único de Saúde) no município de Volta Redonda, observei que nessa unidade de saúde ainda se continua privilegiando, uma concepção fragmentada de saúde, esquecendo-se a relevância dos aspectos sociais e psicológicos como mediadores dos processos saúde-doença, e como essa concepção parece interferir nas relações institucionais (entre os próprios funcionários, com a instituição direta e indiretamente e até mesmo com a comunidade atendida por esta entidade de saúde). Tal observação se deu ao ouvir dela diversos relatos particulares e fatos acontecidos com terceiros (colegas de trabalho), sobre como ela e outros funcionários, lidavam com os limites do seu organismo. Ela contou-me que muitas pessoas trabalham com dor, febre e até partes do corpo seriamente comprometidas (fraturadas, por exemplo), essas observações me deixaram um tanto quanto preocupado e ao mesmo tempo motivou-me a tentar entender o que acontecia naquele lugar e/ou com aquelas pessoas, que as levavam a agirem de maneira tão displicente com o próprio corpo.
Para abordar esse tema de maneira mais objetiva gostaríamos primeiramente de destacar a importante influência da cultura na elaboração dos conceitos que cerceiam nosso cotidiano e no caso do nosso trabalho o de saúde/doença, que invariavelmente está permeado subjetivamente em cada indivíduo. A antropologia define cultura da seguinte maneira: sistema simbólico; formas de pensar que conformam uma visão de mundo; valores e motivações conscientes e inconscientes; uma lente através da qual as pessoas interpretam e dão sentido ao seu mundo (Geertz, 1978). Dentro dessa afirmação, partimos do pressuposto que todas as pessoas que trabalham neta unidade de saúde estão inseridas dentro da cultura que ali existe, ou seja, elas contribuem para construção conceitos dentro deste sistema simbólico, bem como são por ele fortemente influenciados, até mesmo quando vão de encontro a ele. O professor Jorge Iriart, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, no seu trabalho publicado em 2003, ressaltou a importância da desconstrução dos conceitos disseminados a respeito do assunto, fato esse que leva as pessoas a algumas atitudes e reações que podem atrapalhar o desenvolvimento de sua saúde, como por exemplo, o próprio excesso de preocupação com a saúde ou o total descaso para com ela, tudo isso aponta para prováveis anomalias no modo de ver a questão ou de enfrentá-la da melhor maneira possível.
RESULTADOS DO TRABALHO DE CAMPO
Para ilustrar melhor a influência dessa cultura nas ações de cada indivíduo, e exemplificarmos como cada um representa de modo diferente as enfermidades, faremos uma breve narração de fatos ocorridos com uma funcionária da referida unidade de saúde, coletados durante entrevista que fizemos com a mesma em sua residência. Mulher, 63 anos de idade, mãe de duas filhas, avó de duas crianças, trabalha desde jovem, pois perdeu seus pais muito cedo, as filhas moram com ela, uma separada recentemente outra mãe solteira de dois filhos. Ela trabalha a 11 anos no hospital, onde segundo ela é amiga de todos. Mas o que mais chamou a atenção no relato desta senhora, foi acidente que ela sofreu dentro da cozinha do hospital, ela possui uma prótese de patela na perna esquerda, no dia do acidente ela escorregou em uma casca de batata e bateu com seu joelho no chão, sentido após a queda uma dor muito forte, foi então que ela passou a suspeitar que havia quebrado a prótese na queda. Mas mesmo sentindo imensa dor ela continuou a trabalhar, e trabalhou com essa dor por mais de dez dias. E só procurou o médico quando estava totalmente impossibilitada de trabalhar, tamanha era a dor que sentia.
O que pretendemos com esse relato é demonstrar como as representações de saúde e doença são totalmente diferentes uns dos outros, mas que podem ser influenciadas pelo seu ciclo relacional, tanto de maneira positiva quanto negativa, pois no caso acima descrito, para não deixar que os amigos precisassem fazer o seu trabalho, ela preferiu ficar calada do que comunicar o acontecido a seus superiores, e registrar o acidente de trabalho, mas foi também pela insistência de outros que ela procurou um médico.
Deve-se levar em consideração o fato que ela foi ao médico da instituição, que por acaso é o mesmo que a operou, e que ele disse que nada de errado havia com a mesma e que poderia voltar ao trabalho normalmente, sem pedir sequer um simples exame. Segundo a entrevistada somente os médicos da instituição podem conceder licenças para tratamento de saúde, mas que dificilmente concedem alguma, ela não sabe dizer o motivo. Será que ele agiu dessa forma por imposição daquela instituição, ou será que sua representação do conceito de saúde/doença também está comprometida? São perguntas que ficarão sem respostas diretas, pois a US não autorizou a nossa entrada para entrevistar seus funcionários, observarmos o ambiente e as interações sociais das pessoas que trabalham ali. As entrevistas encontradas neste projeto foram feitas porque conhecemos os entrevistados, todas foram feitas fora do hospital, na sua maioria na residência dos entrevistados.
Outro caso é de uma funcionária de 53 anos de idade, que trabalha nesta US há 15 anos, possui bursite crônica, sérios problemas de coluna (hérnia de disco na região lombar), artrose degenerativa (comprovada por exames) e tendinite no braço direito, a mesma relata que há vários anos vem sentindo dores, inclusive já diagnosticas pela medicina as suas causas e que inclusive já foi recomendado pelos médicos uma cirurgia para tentar amenizar os problemas da coluna. A mesma informou ainda em entrevista que nunca fez um tratamento adequado para nem uma dessas doenças, quando a dor se torna insuportável, ela procura o médico da US, que lhe passa um remédio analgésico, lhe dá alguns dias de dispensa, que não pode exceder a três dias e mais nada.
Há duas questões que nos chamaram a atenção e que gostaríamos de refletir sobre elas, a primeira questão é sobre qual é o “lugar” desse médico dentro da instituição? Não seria ele um profissional de saúde que tem como missão principal ajudar as pessoas a cuidar do seu bem estar físico? Ou seria ele um agente da instituição com a incumbência de inibir as solicitações de licenças ou até mesmo ignorá-las? Ou ainda, pelo fato de trabalhar comas pessoas que atende, há por parte dele certa resistência em conceder essas dispensas medicas, por julgar as pessoas pela sua percepção pessoal delas? A nosso ver, ao não indicar nem um tipo de tratamento a essa pessoa que se queixa de dores crônicas que vêm se arrastando ao longo de anos, o profissional aparentemente comete uma falha ou no mínimo um equívoco. O segundo ponto que é importante salientar aqui é o motivo pelo qual essas pessoas relutam tanto em se licenciar para tratar de sua saúde. Essa questão nos chamou a atenção logo assim que foi levantada, pois ao questionarmos isso às entrevistadas, descobrimos que existe uma gratificação paga trimestralmente, chamada de incentivo, para os funcionários que não tenham tirado licenças médicas superiores a quinze dias mensais dentro do período, ou seja, se você tiver uma doença em que precise de vinte dias de licença para tratamento, automaticamente você perde a gratificação, que pode variar de valor de acordo com a faixa salarial do funcionário, para muitos é uma quantia significativa da qual ele não gosta ou não pode abrir mão, talvez por isso ele continue postergando seu tratamento até não poder mais suportar as dores.

CONCLUSÃO
Respondendo as questões levantadas no início do nosso trabalho, e algumas outras que surgiram no decorrer do mesmo, percebemos que essa US, pouco tem feito pela autonomia dos seus funcionários, quando falamos em autonomia, nos referimos ao empoderamento desses funcionários sobre sua capacidade de auto regulação, no sentido de que ele possa ser capaz de identificar suas limitações físicas e/ou psíquicas, ao aparato que é necessário por parte dela para que seu funcionário possa tratar de sua doença, aparato que se estende desde da boa receptividade e imparcialidade por parte de outros funcionários, neste caso especificamente os da área médica, até a tranqüilidade e motivação por parte da administração, para que o funcionário/agente de saúde, possa fazer seu tratamento sem precisar ficar pensando por exemplo no seu orçamento que será prejudicado.
Gomes, Mendonça & Pontes, no artigo intitulado As representações sociais e a experiência da doença, publicado em 2002, dão a doença o sentido que procuramos abordar em nossa intervenção, quando dizem: Aqui empregamos doença ou enfermidade como reflexo da combinação de aspectos da experiência dos indivíduos e situações sócio-culturais. Isso, por sua vez, não significa que desconsideremos os aspectos biológicos presentes no processo do adoecer. Assim, junto a esses aspectos, buscamos desenvolver uma perspectiva interdisciplinar na abordagem da enfermidade (pag. 1212). Afirmam ainda que esse modelo é a que proporcionaria uma dialética entre os envolvidos que, segundo eles, ficariam jogando com seus saberes, nossa questão principal seria como a psicologia pode ajudar a quebrar ou ao menos amenizar esse paradigma, onde as representações sociais da doença estão sobrepostas sobre as experiências individuais, e as ações dos indivíduos envolvidos, passam por aspectos culturais e são tão fortemente influenciados pelo grupo a ponte de, em certos momentos, deixá-la em segundo plano.
A nosso ver, o primeiro passo desse processo é proporcionar a todos os membros dessa unidade de saúde a oportunidade real de expressarem suas subjetividades, criarem um laço, para que vejam no outro um ser que tem seus pontos de vista, suas opiniões, que tem uma experiência que pode, e provavelmente é diferente das suas, levando essas pessoas a um verdadeiro encontro com o outro, ou como se diria na Gestalt, um encontro eu-tu. Gomes, Mendonça & Pontes, confirmam essa observação no trecho de seu artigo, onde dizem: Assim, na medida em que se consegue ir para além das falas e das ações em geral, a articulação entre o representado e o vivido do ser doente pode ser conseguida e servir de base para políticas e ações que contemplem os sujeitos para os quais se estas destinam (pág. 1213).
O psicólogo neste sentido deve ser um articulador das relações, que vai procurar no diálogo construir ou desconstruir significados e ajudar a buscar a melhor maneira de responder as demandas de cada um. Ocampo (2006), assim descreve o psicólogo que atua junto às unidades de saúde: Esse profissional trabalha as relações de forma a promover a autodeterminação das pessoas, buscando desenvolver uma atitude de esperança na própria capacidade de resolver as situações que elas enfrentam cotidianamente (pág. 15). Bleger (1984) estabelece duas tarefas essenciais no âmbito da atuação psicológica dentro de instituições, em primeiro lugar ele afirma que a instituição deve ser investigada e tratada, o segundo nível seria o da atuação sobre grupos humanos, ele afirma que o profissional de psicologia deve atuar sobre a problemática, as tarefas e as situações de tensão coletiva, utilizando-se dos meios de comunicação ao seu dispor e toda gama de organismos e instituições já existentes dentro daquele sistema.
Em suma podemos dizer que nossa tarefa dentro do tema proposto para a intervenção é o de proporcionar uma melhor comunicação entre os agentes de saúde, incluindo as pessoas responsáveis pela administração, desconstruir pré-conceitos entres os subgrupos que se formaram dentro daquela unidade de saúde (grupo dos médicos, grupo das cozinheiras), oferecer as informações possíveis e necessárias para que o indivíduo possa construir seus próprios conceitos e que, a partir dessas construções, suas representações possam encontrar um equilíbrio e eles possam falar em nome próprio. Sabemos da dificuldade de implantação e até mesmo de aceitação dessa intervenção no âmbito institucional, prova maior foi a indiferença da referida unidade de saúde para este pesquisador, que não se deu ao menos o trabalho de responder a solicitação feita por nós, a fim de obtermos uma autorização para que pudéssemos entrevistar seus funcionários, mas segundo Bleger (1984) isto também faz parte do processo, notamos explicitamente isso quando ele nos fala sobre os objetivos da instituição e os objetivos do psicólogo:
Um serviço hospitalar solicita o assessoramento de um psicólogo, mas entorpece total e permanentemente sua atividade; o exame da situação descobre o fato de que o interesse da instituição reside basicamente em ostentar uma organização progressiva e científica frente a outros serviços hospitalares competidores, mas a atividade do psicólogo é, na realidade, temida. Estes fatos não invalidam, não impossibilitam a função do psicólogo, e sim que já são as circunstancias sobre as quais justamente se tem que agir (pag. 42).
Por isso é importantíssimo a participação e a contribuição de todos, a abertura de canais de comunicação direta entre o os membros da organização, a implementação de ambientes voltados para discussões da temática é primordial, a capacitação dos profissionais é peça chave dessa relação empoderadora, que citamos anteriormente, capacitação no sentido de que eles aprenda a ter uma visão global das relações pessosas-contexto, seja psicólogo, médico, assistente social, cozinheira para que deixem de predominar preconceitos comuns em relação a eles.
Enfim, é necessário reaprendermos nossas relações de maneira a torná-las o mais igualitárias quanto possível e proporcionar, acima de tudo, a aprendizagem e o autoconhecimento em busca do equilíbrio individual, e isso conseqüentemente refletiram de maneira coletiva e o psicólogo deve agir como facilitador dessa tarefa, para encerrarmos queremos deixar aqui a frase de Bleger (1984) que sintetiza todo nosso pensamento:
O mais importante que ocorre é que não somente podem se esclarecer e corrigir problemas e situações, mas sim que gradualmente tem lugar uma meta-aprendizagem quem consiste em que os implicados na tarefa aprendam a observar e refletir sobre os acontecimentos e a encontrar seu sentido, seus efeitos e integrações (pág. 47).